17 outubro, 2016

A moça


Esse é um texto sobre discriminação, é um texto sobre a verdade, é um poema sobre a dor, é a rima do choro. Mas antes, melhor sabermos o que é a famosa e cruel discriminação. "Discriminação é o ato de separar, injuriar e humilhar. Pode ocorrer em diversos contextos, porém o contexto mais comum é o social, através da discriminação social, cultural, étnica, política, religiosa, sexual ou etária, que podem, por sua vez, levar à exclusão social." Por Wikipédia

Olha, existe uma moça tão bela,
Tão bela.
Que quando, ela passa o mundo olha ela,
Tão bela.
Mas a cidade, quer, fazer ela parar....
de ser ela.
Porque, o que a moça faz, é pecado,
é errado, é mal educado.

A moça, acorda cedo para cuidar da casa,
Porque marido, o marido, deixou ela,
Pra trás.
O filho, ela acorda, para ir a escola,
tão cedo.
E depois, que o ônibus passa, e o leva,
ela fica.

Limpa casa, lava roupa, cuida do cachorro,
do gato.
Fala com ninguém, porque está escondida no quarto.
A vizinha, da sacada, olha pra ela,
tão bela.
Mas para a vizinha, bela ela não é.
Observa, cuida da moça, que lava a roupa no tanque,
E com um gesto, volta para dentro da casa.

A moça, tá acostumada, tá marcada,
tá sofrida.
Ontem mesmo, de noite, uma pedra voou,
na direção dela.
Tão bela.
Acertou em cheio a cabeça, abriu uma ferida,
mas a moça, tá acostumada.
Ela não sabe quem foi, ela nem quer saber,
quer que tudo fuja dela.
Tão bela.

Quando o filho chega em casa, da escola integral,
a moça, tá arrumada, tá maquiada, tá se sentindo bem.
O filho abraça, a moça, que abraça também,
o mais forte que consegue.
Ela, dá um beijo no filho, fala que volta de manhã.
Pega a bolsa, dá outro beijo no filho, e sai.
Ela e a noite, ela e o silêncio,
ela, que é tão bela.

Chega na rua, aonde trabalha,
sim ela trabalha na rua.
Começa a andar, fica na esquina,
com a sua bolsa, com a noite, com o medo.
Um carro para, ela chega perto,
o moço, pede, pergunta, e no final aceita.
Ela entra no carro, e faz coisas, que a vizinha,
que a cidade, que a família, que a sociedade não gosta.
Depois, pega o dinheiro, e volta para a esquina,
e fica ali, até amanhecer.

Quando o último moço vai embora,
ela cansada, pega a rota para casa.
Ela, que é tão bela.
A moça demorou um pouco demais, e o dia já tá claro,
O filho já devia tá acordando, o café devia tá pronto,
e a casa, devia tá quase toda limpa.
Na rua, quase perto de casa, ela encontra,
alguns vizinhos, alguns moços, o marido,
o cara da igreja, a vizinha que sempre da sacada, olha para moça,
ela, que é tão bela.

Tá um pouco cedo, e ela nunca viu essas pessoas,
tão cedo, ali na rua.
A moça, olha para eles, e eles olham para moça.
Um grita: "É ela, a vagabunda, a prostituta,
a puta, a rodada"
E outro: "Bora, acabar com a vida dela, que só trás desgraça,
para a nossa vizinhança, para o filho, e para o marido,
que teve que ir embora"
A vizinha: "Vamos logo, essa praga não faz nada, fica em casa,
ganha dinheiro sujo, suja a nossa rua, com o fedor que ela exala"
O marido: "Mata essa piranha, mata ela agora, o meu filho não merece,
ter isso como mãe"

E então, a moça, não vê saída,
é ali que acaba, é ali que pode começar outra vida.
A moça, não corre. Já eles, vem tão rápido.
Uma pedra voa, acerta na sua perna,
tão bela.
Quem atacou, foi a vizinha, que é dona de uma padaria,
que ela foi pedir emprego quando chegou na cidade.
Outra pedra voa, acerta nos seus seios,
tão belos.
Quem atacou, foi o cara da igreja, que ela foi pedir pão,
quando não tinha nada para comer.
Outra pedra voa, acerta o seu braço,
tão belo.
Quem atacou, foi o marido, que todo o dia batia nela,
ficava bêbado, surrava o filho, e a enchia de medo.
A última, certeira, voou da mão do atirador, até a cabeça.
Tão bela.
Quem atirou, ela não sabe, porque caiu e não viu mais nada.

Morreu, a moça tão bela.
Que fazia coisas obscenas,
Que vivia no pecado,
Que fazia o errado.
Por que?
Porque precisava cuidar do seu filho,
dar comida para ele.
Já que não conseguiu emprego na padaria da vizinha,
Que o moço da igreja não deu um pão,
Que o marido, que a surrava, fugiu com outra.
Já que toda a sociedade condenava ela.

Pode ser que, a última pedra que foi atirada nela,
foi jogada, pela mesma pessoa,
que foi na esquina, pedir um favor,
para a moça, que era,
tão bela.

Por Edson Lopes
Foto por Magic4Walls

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